Ao Anjo que canta por si

Postado por Joao Almeida em 04/08/2017 20:15:02

Hoje, poderia ter ficado desperto quando acordei, poderia ter sentido o mundo, o meu redor, consoante o meu estado interno, e até que senti, de alguma forma tinha uma camisa para passar a ferro, de tomar banho, de me vestir e ir para o trabalho, tinha também de tomar o pequeno almoço, e agora que temos uma gatinha, tinha de a alimentar, dar comida e água, e limpar a sua caixa de areia, e posteriormente, sair de casa, dirigir-me ao meu consultório e dar algumas consultas, de certa forma até que o fiz.

Pela tarde iria à minha terapia, e pela noite iria jantar com minha família, não muita, mas a suficiente para me sentir preenchido, iria com certeza ligar à minha namorada que neste momento não se encontra comigo, e posteriormente iria reatar ligações com uma amiga que não vejo nem falo à alguns, coisas parvas quem sabe um dia compreendê-las, tavez sim, uma longa conversa não aos fins a que me proponho. Portanto, de certa forma, um dia, até ver preenchido, há e teria de ir a casa ligar o frigorifico, sim, não estou na minha casa, estou numa outra. Um dia preenchido, ocupado, e se queiramos, uma rotina, aquela que criei para mim e que se calhar por vezes não a sinto como deve de ser, posso atrapalhar-me durante a mesma, posso até me esquecer de alguma coisas, com certeza que me esqueço, sou distraído por nascença, mas garanto que não mais, até me ir me esquecerei do sorriso da alentejana empregada de limpeza que limpa o átrio e afins do prédio de onde estou e que desde sempre me viu crescer, quem sabe andou comigo ao colo. Sim, tem quase oitenta anos e uma magia terna de fazer as pessoas pararem, olharem, sentirem e conversarem, uma luz interna muito grande, um amor que brota e um certo charme uq eos brincos e os olhos esverdeados e cansados lhe conferem. É uma pessoa sozinha, por norma levanta-se às seis da manhã, senão às cinco, aquelas manias de quem é do campo e tem de trabalhar, do sangue bom como me dizia hoje de manhã, mas ela lá se levanta, e por volta das sete já se encontra nas lidas do prédio, depois, vai à rua, nos seus passeios, pelo autocarro, ao centro comercial, com ou sem amigas, por ali fora vai, destemida como o sol solitário em pleno Alentejo. Vai aos coros, e passa algum tempo num lar perto de casa, passeia, convive, vai aos médicos, e anda pelos cafés, e canta, canta muito bem aqueles cãnticos Alentejanos, uma doçura ouvi-la a falar destas coisas, por ventura a falar implicitamente da sua solidão, bem lá no fundo, mora aquele olhar triste que só ela o dirá, por detrás da fortaleza sorridente que fornece a cad aum que um triste aceno lhe prega. Mas, hoje não estava sorridente, de olhar cabisbaixo e um pouco ausente, lá lhe pergunto pelo que tem, ao que me diz directa que não sabe pelo filho, que a sua irmã lhe diz para se preparar ao pior, e que a sua neta lhe tem ligado, por outro lado diz que se sente insegura para ir até lá acima ver o seu filho, dizia-me ela, já sou velhinha, o meu amigo ou são os meus amigos que me levam lá acima, ou os amigos do meu filho, ou por mim, pelas minhas pernas, tenho medo de lá ir acima, tenho medo de ir pelo comboio fora e de sei lá, não saber e estar a olhar para trás por causa dos gandulos, tenho medo João, mas tenho o telefone comigo, e sei que posso ir sabendo das coisas, sabes joão o meu filho tem cancro, e já me dizem prepara-te para o pior, mas eu digo, eu nao tenho ninguém aqui comigo, estou sozinha, olho ao espelho e sinto uma sensação negra, de dor, de tristeza, de luto, não sei, uma sensação que nem sei explicar, e chorava pelos olhos cansados de quem sofre e sofre para dentro, e sofre, e sofre, sofre, uma dor insuportável. Mas de forte, calejada ela vida, refere que acredita que sim, que irá dar a volta, que o meu filho tem sangue bom, eu que me curei de uma operação em poucos dizas ele também se curará, tenho medo, tenho muito medo João, e sabes de quê? que o telefone toque e que eu não tenha forças para o ouvir, para o atender, e muito menos para ouvir...

 

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