Atravessando a rua

Postado por Fernanda Miceli em 23/05/2017 10:15:02

Pra variar ela acordou a atrasada. Pra variar ela saiu descompensada pela rua a fim de não perder a hora do último ônibus que não saia tão lotado pela manhã. E pra variar, com essa correria toda, ela esqueceu várias coisas em casa, uma delas seu inseparável celular com o qual ia ouvindo música para o trabalho e aproveitando o momento "bolha" para pensar na vida. Sendo assim, ela se viu obrigada a observar a paisagem, as pessoas, o comércio abrindo e a vida aos poucos despertando. Percebeu o quanto deixava de perceber quando estava com seus fones nos ouvidos e cochilando pela manhã. As coisas aconteciam debaixo do seu nariz e ela não era capaz de notar.

Ela percebeu o quão o céu é bonito em rajados de rosa e alaranjado enquanto o sol vai tomando conta devagarinho até ganhar a cor azul celeste. Ela viu que as pessoas não estão nada bem humoradas pela manhã e poucos são os que se atrevem a puxar conversa. Viu também que a tolerância não é nada extensiva  com os demais e que já aquela hora da manhã a maioria está com as ânimos à flor da pele. Percebeu os pontos do trânsito que congestionam sem ter motivo algum e outros por muitos motivos. Viu mães, avós, empregadas arrastarem as crianças praticamente dormindo para as escolas, os donos de cachorros levarem os bichanos para se desapertarem nas árvores alheias da cidade. E nesse foi vendo, foi vendo, foi vendo, o tempo passou, a viagem chegou ao fim e quando ela menos esperava estava lá, esperando o sinal abrir para ela atravessar e seguir seu caminho para o trabalho. E foi nessa fração de segundos que aconteceu...   O vento gelado bateu e esvoaçou todos o seu cabelo, levando uma mecha ao rosto, foi então que quando ela se virou um pouco para tirá-lo da cara quando, os olhos deles se cruzaram.  Foi aquele olhar que prende. Aquele olhar devastador. Não era de malícia, não era de desejo, era um olhar diferente. Aquele que explora, aquele convidativo, aquele que não quer parar de olhar e se pudesse passava o dia inteiro olhando para ver o que há dentro e por detrás daquele par de olhos.  Um olhar penetrante, um olhar marcante. Nesse momento ela desejou estar com seu cel para poder escolher uma trilha sonora para a ocasião. Algo como "Maybe" ou "Laserlight". E foi como naquele comercial do dia das mães: automaticamente ela pensou: não estou com a melhor roupa, nem meu cabelo arrumado, make só um batom simples, nada de saltos, algumas poucas bijus. Não, ela não veio preparada achando que seria impactada por um par de olhos mel espreitando e absorvendo cada gesto, cada detalhe seu. Deveria ser um simples dia de trabalho. E ela ainda estava com cara de sono. Entre as olhadas para o sinal verde e os olhos um do outro, poucos pensamentos, meio desnorteados passavam pela cabeça dela. Seria coincidência esse encontro? Ela nunca tinha reparado se já cruzara com ele antes. Seu segundo pensamento foi tentar saber para onde estava indo. Estavam em lados opostos da rua, portanto não seguiriam juntos pelo mesmo caminho. E se nunca mais voltasse a vê-lo? E se tivesse sido uma peça que o destino pregou para atiçar nela uma vontade, uma curiosidade e depois nunca mais voltar a esbarrar com ele? E se, fosse o contrário? Começaria ali alguma coisa, a partir de uma simples troca de olha? E por fim, ela achou por bem parar com esse interrogatório para ela mesma e achar a resposta para tantos "se". Olhou novamente para o sinal e a cor amarelo surgiu. E ela gelou! Não sabia se ia e cruzava com ele. Não sabia se ficava e esperava ver no que dava quando ele chegasse de encontro a ela. Um mar de gente se aglomerava em torno deles, ansiosos pela luz vermelha do sinal para os carros, enquanto ela em seu íntimo pedia para demorar horas mais.   

 

 

 

Desde que seus olhares se cruzaram, em nenhum momento ele desviou. Ela, por sua vez sem graça e desacostumada a esse tipo de "investida" não sabia pra onde olhar sem retribuir incessantemente os olhares, o que fazer com as mãos, se ajeitava o cabelo ou a roupa. Ela sofria desse tipo de nervosismo quando se sentia constrangida. Essas ações que a gente tenta controlar, não consegue e depois tem vontade de morrer por parecer coisa idiota. Finalmente o sinal fechou e a massa avançou para os lados opostos da calçada. Ele e ela no entanto, permaneceram imóveis. É bem verdade que quase foram arrastados pela multidão apressada, corrida e impaciente. Alguns olhavam torto, outros soltavam algumas palavras nada gentis, tantos outros ainda passavam com esbarrões e caras de interrogação como se perguntassem o que aquelas duas mulas estavam fazendo atravancando o caminho. E o vendo, não parava. E através dele, ela jurava que podia captar o perfume dele. Não era doce, mas também não era seco,  não era suave e nem era forte. A dose certa. Tipo carne de churrasco quando você pede "ao ponto". É isso, sem exageros! Avaliando um pouco mais, a barba meio por fazer porém rasa. O cabelo era um misto de desarrumado com estilo. E a roupa, jeans, tênis, camisa polo, caia super bem num corpo nem magro e nem musculoso. Aliás, tudo nele parecia ter sido feito sob medida, bem caprichado. E, quando voltou dos seus devaneios analíticos, ela se deu conta de que ele também não deu um passo se quer. Continuava inerte, no mesmo lugar. Talvez, pensasse a mesmo coisa que ela, indeciso no que ia fazer, talvez, pela certeza de nunca mais se verem, resolveu aproveitar um pouco mais daquele saboroso momento. Ou talvez, por nenhuma razão, apenas por pura vontade, ele quisesse ter ficado ali, preso no olhar dela, simplesmente porque o que estava acontecendo, não tinha explicação.   O n° do tempo em verde piscando apontando quantos segundos ainda faltam para o sinal abrir começou a contagem regressiva e eles perceberam que não dava mais para adiar. E esperando um ir, pro outro ir depois, nesse jogo de fazer depois que outro fizer, deram os dois o primeiro passo e foram pisando firme mas devagar olhando sempre nos olhos em direção um do outro. De repente, a rua ficou vazia e a faixa de pedestres era só deles.  Eles literalmente se rodearam, se fitaram, se testaram. Na cabeça dela, toques, beijos e abraços. Quem sabe não estaria passando isso pela cabeça dele? De fato mesmo, eles apenas pararam um do lado do outro, geraram um leve toque nos ombros (o que provocou um calor imenso) sentiram o perfume um do outro levados pela brisa e ele sentiu o toque macio dos cabelos dela que ficaram presos em sua barba por fazer. A respiração mais forte fez-se sentir pois estavam praticamente frente a frente, bem próximos, bem perto, bem colados. E quando parecia que o inesperado porém desejado iria acontecer, não dava mais tempo. O sinal abriu e os veículos impacientes buzinavam querendo andar enquanto eles vagarosamente seguindo para lados opostos da calçada, na virada de corpo, um leve toque de mãos. até chegarem à calçada, seguiram sem olhar pra trás. Quando chegaram, cada qual no seu lado, se viraram e permaneceram ainda por alguns segundos se olhando, como que se despedindo, como que se lamentando, como que se não acreditando que do improvável pode surgir um fato que muda tudo. É isso, nitidamente, para os dois, isso mudou tudo. Mudou o rumo da direção, do pensamento, dia dia... E assim permaneceriam imaginando quando aconteceria e se aconteceria o próximo encontro ou se foi só uma brincadeira do acaso com duas pessoas distraída e levianas que querias apenas cumprir suas tarefas diárias, sem nenhum grande expectativa, sem nenhum grande desejo. E, enquanto o dia seguinte não chegava e enquanto a ansiedade não se tornava insuportável,eles seguiram a passos lentos e tristes, olhando algumas vezes para trás, até se tornarem pequenos e inatingíveis e olhos nus.  

 

 

 

Andando de cabeça baixa pela rua, atormentada, mexida e outras tantas coisas mais que ela não consegui a descrever, sabe-se lá por que, ela olhou para o relógio e concluiu: definitivamente, agora, estava mega atrasada! Só não sabia ao certo se para o trabalho ou para a vida...

 

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rua vida casual encontro