E SE A CASA CAIR?

Postado por Clarissa Câmara em 16/07/2017 13:45:02

Eu um desses dias de TPM, resolvi ficar em casa e fazer alguns “nadas” comendo chocolate e vendo aleatoriedades na internet. Me deparei com a seguinte manchete do Estadão: “Rodrigo Hilbert constrói casa para os filhos e web elogia”. Vamos dissertar? Há mais ou menos dois meses tenho em mãos um livro chamado Meu menino vadio de Luiz Fernando Vianna (por favor, leiam!!), e eu tenho lido devagar porque primeiramente (fora temer) eu não tenho tanto tempo quanto gostaria e em segundo lugar pois o livro é maravilhoso e eu preciso apreciá-lo com calma, tal qual minha caixa de chocolates. O livro já me causou certo impacto na dedicatória, onde o autor escreve: “Para minha filha compreender seu pai e seu irmão, se der né? ”. É que ele fala de sua experiencia com seu filho autista. Me abismei com a possibilidade de alguém precisar escrever um livro pra esclarecer suas circunstancias a outro alguém, que por ora está ali perto, vivendo tudo. Eu poderia parar por aqui minha crítica ao livro, mas o autor me pegou pelos pés quando diz que numa sociedade cristã, sobretudo católica, sofrer é uma dádiva. Não estamos acostumados a ouvir pessoas dizendo que não gostam de ser pais ou que, embora amem muito seus filhos, não os teriam tido caso soubessem o que sabem agora, porque temos a impressão de sempre estarmos em débito com a vida. E por isso precisamos sofrer, e sofrer é bom. Eu padeço de uma síndrome chamada de Síndrome do Impostor. Já tive crises de ansiedade por achar que a qualquer momento alguém vai descobrir que sou uma farsa, e tudo o que fiz até o dia de hoje vai pro buraco. Há pelo menos seis anos tive os primeiros sintomas, quando estava realizando um projeto de engenharia e percebi que tudo que eu fazia, e era elogiado pelas pessoas, pra mim não trazia o menor sacrifício. Exatamente, sacrifício. Desde então, fui piorando e piorando, até que em alguns meses de doutorado, quase surtei por achar que eu estava entrando numa zona de perigo intenso, o qual eu seria posta à prova e finalmente descobririam que sou uma grande impostora: foi no exame de qualificação. Trabalhos respiratórios e de meditação ajudam a permanecer em equilíbrio, mas o que mais ajuda é: aceite o estágio em que você se encontra, aceite que você está aí porque tem que estar e se der “zebra” você terá saúde pra superar. Parece engraçado, mas é assim que eu penso todos os dias quando acerto alguma coisa e meu coração dispara. E sabe por que surgem todos os dias doenças psicológicas novas? Sabe por que todos os dias alguém surta e vai correndo pro terapeuta pedindo ajuda senão a coisa desanda? Sabe por que todos os dias a gente acha que não está fazendo por onde merecer aquilo? Porque continuamos acreditando na hipocrisia, muito mais do que na verdade. E continuamos a achar que só o sacrifício pode trazer todas as dádivas necessárias. Eu usei dois exemplos nessa crônica e você deve estar se perguntando qual a relação entre eles. O caminho está na verdade que temos a tendência em acreditar. Hilbert só esta sendo pai. O Vianna só está sendo pai, de uma forma bem peculiar, já que seu filho sofre de autismo. Ambos têm que construir casas em árvores, acessar o inatingível, pintar paredes e reformar conceitos. O que não estamos adaptados é com a verdade que isso engloba. É difícil acreditar que há possibilidade de um incomodo, de um devaneio sobre desistir, num meio social tão cheio de regras, rótulos e títulos. É falso acreditar que pra galgar algo a gente precisa ser triste, ao mesmo tempo sacrificado. É hipócrita achar que pra ser quem somos temos que passar horas a fio trabalhando, adormecendo na frente do computador sem pedir descanso. É triste abrir uma matéria como a do Estadão e ver pessoas falando: já não se fazem mais maridos como Hilbert; você tem que vir aqui em casa ensinar isso pro meu pai; nunca vou encontrar um homem assim... É desolador. Miserável. Achei de uma mediocridade incrível. Meu pai fazia cabanas de lençol. Me ensinou a tocar violão, a ler sobre Buda e cozinhar pirão. Meu pai me levava pro canavial, pro sertão, pro Cariri. Me ensinou sobre a verdade de um jeito diferente. Me ensinou a valorizar o esforço bem mais que os sacrifícios. A diferença é que o esforço provoca um amor constrangido: é uma necessidade de elevar o ato de forma gratuita. O sacrifício representa trocas, pois implica em rótulos. Entenda, não estou criticando Rodrigo Hilbert. Acho que ele está certíssimo, tem que pintar parede, fazer frango na fogueira, construir casa de toras e quebrar madeira com o quengo mesmo. Estou criticando a gente, que lê uma manchete dessa e já pensa na pessoa que está ao nosso lado com certo julgamento. Estou criticando os poucos leitores que ao lerem Vianna pensaram: como esse homem é cruel! Só porque temos a audácia de achar que sempre estará tudo bem, que sempre temos que estar sorridentes e aceitar que tudo é às mil maravilhas. Eu acho que é daí que vem aquela falsa impressão que “a grama do vizinho é mais verde”. E se a casa cair? E se Vianna escrever que tá de saco cheio de ler sobre psicologia infantil para autistas? E se as coisas não forem do jeito que a gente imagina? Vamos morrer?? Vamos perder tudo?? Aí vem também o outro lado da moeda. E se de fato somos inteligentes o bastante pra ser quem somos? E se nós nascemos pra sermos felizes sem precisar espalhar por aí um marido ou seja lá quem faça casinhas de madeira? E se eu não me encaixar nos paradigmas sociais e religiosos de felicidade? E se eu não precisar do sacrifício? A casa vai cair?? Entende que tudo na vida é sobre esforço? Desde abrir um pote de azeitonas à encontrar a razão pela qual estamos acordando cedo. Desde consertar a torneira à conquistar a pessoa que queremos tanto. Já se foi a época em que pra ser feliz teria de arrastar os joelhos em pedras, trabalhar era nostálgico, estar apaixonado era doentio. Isso foi na Idade Média, nas indulgencias e no governo Color. Querido, se a casa cair vai ficar tudo bem porque estamos onde temos que estar. A gente não precisa dos meios pré-estabelecidos pra determinar nossa caminhada. A felicidade e satisfação só será vivida por você, não por quem determina como deve ser. E tem mais uma coisa: esforce-se mais, sem sacrifícios. Já passamos da idade de entender que a vida é muito mais sobre apreciação do que sobre pressa e ação. Presta atenção na tua grama e valoriza o crescimento dela, sem medo de assumir que às vezes cansa regá-la, mas admirá-la supre qualquer cansaço. Rótulos, são pra potes de margarina. 

 

MARCADORES:

rótulos vida compreensão eu interior