Sobre o que trazemos conosco

Uma crônica pra te ajudar a se pertencer

Postado por Clarissa Câmara em 06/11/2017 12:09:20

 

Escrevo da estação de onde consigo ver as pessoas corriqueiras falando alto e sonolentas. Daqui posso ver as formas das faces, as mãos cansadas, colhendo exaustão dia a dia. Daqui vejo também um homem de pele negra, com olhos apertados, segurando uma sacola de feijão, cantarolando algo que me parece Noel Rosa. Ele, recostado na janela, me lembra quase um perfil literário. Atento as paradas das próximas estações, colocando suas mãos às vezes sobre as pernas, batendo de leve os dedos como se tivesse compassando a música. Ele criou ali um pequeno refúgio.

Pequenos refúgios não são locais isolados dentro da gente pra onde temos que fugir. Não é uma fuga. É um encontro. É quando você está no meio da multidão e encontra um ponto dentro da sua consciência aonde pode se enfiar. E lá existe a paz, a mesma do senhor cantando Noel Rosa com os dedos tilintando nos joelhos. Pra se encontrar, é preciso ficar sozinho.

É assim que uma comunidade na base do Himalaias processa suas características e descobre suas habilidades. Eles enviam seus jovens ao bosque e os deixa meditando, criando soluções para sua própria sobrevivência. Antes de voltar a comunidade ou de se permitir uma nova etapa, seja essa uma carreira ou um relacionamento. Eles devem aprender a lidar consigo primeiro, para então expor suas vulnerabilidades frente a uma nova situação de exigência.

Como poderei formular uma solução em conjunto com me entorno se não sou capaz de prever minhas fragilidades e minhas forças? Esse é um processo de interiorização profunda. É nesse momento que convém esclarecer sobre amor próprio.

O amor é um processo difícil porque exige certa crueza. É um escavar interiormente, de modo que todas arestas sejam conhecidas. Dói fazer isso. Morre-se pouco a pouco pra depois reviver dentro de um novo cenário de clareza. Não é que vamos nos tornar perfeitos. Não é sobre deixar de sentir coisas ou não ser avesso a situações. É sobre se observar. É sobre se perceber.

Me lembro de uma época em que a internet havia acabado de entrar no meu mundo. Meus amigos já faziam milhares de coisas nela e eu ainda nem sabia clicar com o botão direito do mouse. Mas eu descobri um acervo on line de Pablo Neruda. Nele haviam gravações, textos diversos, rabiscos digitalizados, fotos da sua antiga casa na ilha e pequenos filmes que ele mesmo gravava. Eu estava sob efeitos de uma droga impactante chamada poesia.

Naquela época, eu me recompensava aos fins de tarde ouvindo as gravações com sua voz rouca recitando “HAGO girar mis brazos como dos aspas locas...en la noche toda ella de metales azules.” O encantamento estava em perscrutar apenas o que me cabia. Não ir além, não pensar em mais nada, apenas naquele mínimo momento, o sotaque, a voz e os versos que tanto me faziam suspirar.

Um estar aqui. Uma vontade de se pertencer a esse plano. Enveredar por um status atual, que não se quer mais do que o que se tem. De viver o poema na hora certa, como se não soubesse de mais nada.

Eu queria voltar a não saber de mais nada como naquela vez que liguei o computador pela primeira vez. Tão serena eu estava e certa de que se fosse além daquilo, certamente me atrapalharia. Já não vejo sentido nos planos a essa altura da vida. Quando se está na estação de trem, tudo o que possuímos é um desejo súbito por sentar-se e admirar a viagem.

 

Caro leitor, um dia todos iremos perceber que não são das luzes que precisamos, quando se tem os astros. Que a chuva traz de algum lugar uma sensação de pertencimento a essa natureza completa. Que nós nos forçamos em vão a fazer uma trilha medonha, quando tudo que temos já é suficiente para que possamos amar e viver.

 

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