Meu espaço

Um conto sobre a solitude

Postado por Marisol Drummond em 18/10/2017 16:44:35

Havia um espacinho em branco no meu coração que sempre tentei preencher.
Deixei dias livres para visitação, recebi indiferentes inquilinos.
Mas ainda assim estava frio.
Passei anos olhando minhas cicatrizes no espelho.
Procurando beleza no meu olhar, na minha pele, em todos os meus defeitos.
Consertei o que pude, mas a reforma nunca acabava.
Morei nas minhas lágrimas, nos dias de dúvida e em todas as palavras cortantes atiradas em mim durante quase toda a vida.
Até que um dia resolvi me visitar.
Bati na porta do meu próprio coração, entrei naquele quarto abandonado e tudo que tínhamos era uma camiseta antiga e uma fraca luz solar entrando pela janela.
Daquele dia em diante, enquanto esperava alguém chegar, aproveitei para explorar o vazio. 
Trouxe flores, alguns discos, um punhado de papel e caneta. E livros.
Conversei com meu silêncio e escutei o que ele tinha pra falar. Dancei sozinha com meus fones de ouvidos enquanto a noite caía.
E aos poucos, fui me mudando para aquele cantinho.
Mesmo com as coisas bobas e absurdas que não aceitava nele. Com as cicatrizes, as lembranças ruins e a péssima personalidade daquele coração, eu prometi amar.
O cabelo que via refletido no espelho, os olhos de tristeza, as curvas.
Passei anos admirando a força que carregava em tentar encontrar um respiro de alegria em meio a tanta lama.
E ali, aprendi sozina sobre aceitação. No espelho, vi a pessoa mais linda do mundo.
Vulnerável, carregada de sonhos e com as melhores intenções em meio ao temporal. 
Então assumi o risco de morar em mim, e meu coração angustiado aquietou-se.
Hoje eu ainda choro.
Por coisas humanas, queridas e só minhas, 
A diferença é que não dói tanto. Existe consolo pra cada dor.
Reencontrei o amor que sempre sonhei e encontrei em mim o amor-próprio.
E depois de anos lutando contra meu reflexo, eu estou em paz.
Com meus pensamentos,
Com as minhas escolhas,
Comigo mesma.
Em paz.

 

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