O órgão do amor

Postado por Ge Guimarães em 12/01/2018 08:36:09

   O órgão do amor

   Embora o coração seja o órgão do corpo humano comumente associado ao amor, em verdade é em nosso cérebro que se descortina o palco onde desfilam e dançam os personagens que compõem o espetáculo do sentimento mais nobre do ser humano. O coração é uma víscera autônoma, que trabalha incessantemente bombeando o sangue que viaja por todos nossos órgãos, distribuindo oxigênio e resgatando gás carbônico. O coração não sente, trabalha. E isso nada tem a ver com o amor.

   E onde reside o sentimento? Vamos refletir antes de ousar responder. De antemão antecipo que é difícil definir o que é o amor e de onde ele vem. Mas podemos pensar e analisar as demonstrações de amor, e quem sabe assim nos aproximar de sua sede e seu conteúdo.

   João ama Maria. E por amar Maria, cuida de seu objeto de amor. Estimula Maria a crescer pessoal e profissionalmente, respeitando suas subjetividades, gostos e escolhas. Acolhe suas dores e oferece-lhe carinho e prazer incondicionais. Esse João, que agora ama Maria, é um produto do meio onde nasceu e cresceu. Foi amado por seus pais e incentivado a desenvolver suas potencialidades e a buscar sua identidade. Nunca teve nada “na mão” e aprendeu a dar valor ao suor de seu rosto. O “eu” de João é adulto e maduro, seguro de si, e por isso expressa seu amor por Maria de forma respeitosa e livre. A relação dos dois pode acabar um dia, como qualquer relação, mas encontra terreno propício para florescer e dar frutos.

   Fábio ama Luiza. E por amar Luiza, cuida de seu objeto de amor. Mas Fábio é imaturo e inseguro. Cresceu em uma família que confundia amor com bens materiais, cercando o menino de mimos e presentes; o mesmo tinha todos os anseios satisfeitos num estalar de dedos. Cresceu e tornou-se um adulto egoísta e autorreferente. Fábio vive presenteando Luiza e enchendo-a de joias e viagens. Mas indiretamente exige da moça atenção e cuidados. O amor não era livre, mas sim condicionado. Ele deveria ser o centro das atenções. E todos os passos na vida da garota seriam submetidos à aprovação de Fábio, que raramente cedia em algo a favor da namorada. Censurava a roupa, as amizades e a família de Luiza. A relação apresentava ingredientes certos para conflitos e infelicidades vindouras.

   O sentimento é o mesmo? Difícil responder. Mas o fato é que o amor que João tinha para oferecer era produto do ser psíquico identificado pelo nome João. Seus pensamentos, gestos, atitudes e expressões que “provam” seu amor é fruto da pessoa que João se tornara, de sua identidade enquanto homem. E Maria sentia-se feliz e liberta por isso. Já Luiza, para não contrariar e perder o amor de Fábio, e aterrorizada pelo medo de ficar só no mundo, submetia-se e satisfazia a todos os caprichos do rapaz, que oferecia seu amor do modo que fora amado, como o centro das atenções do mundo. Em sua subjetividade, o homem chamado Fábio possuía em si a representação de mundo herdada de seu meio, e essa era sua forma de manifestar o amor que sentia por Luiza, mesmo que esse sentimento a aprisionasse e deixasse a moça infeliz e reprimida. Ele não enxergava dessa forma. E declamava aos brados seu amor.

   O fato é que a palavra amor só perde para a palavra Deus em verbalização. É palavra proferida e “postada” a todo o momento, nas mais diversas situações, sempre com um emissor e um receptor, esse que a aceita sem questionar, pois todos querem ser amados. Talvez Amor e Deus sejam apenas palavras diferentes para a mesma coisa, a comunhão em uníssono de nós, humanos, seres atormentados e perdidos em meio ao caos universal desse mundo sem inicio nem fim. Talvez a linguagem essencial do amor seja a forma de expressão não escrita, não pensada e não falada capaz de acolher nossas angústias e transformá-las em paz e harmonia interior.

   O amor verdadeiro, seja proveniente do coração ou do cérebro, é a um só tempo singelo e complexo, mas sempre livre e apaixonado, e capaz de embalar nossas mais puras essências em direção à liberdade e ao encontro da paz interior. Amor não é submissão. Não é uma relação unidirecional. Amor é sim cumplicidade, respeito e bilateralidade.

 

   Em tempos de banalização e superficialidade das relações humanas, torna-se cada vez mais difícil compreender se os afetos ofertados e declamados a todo instante são sentimentos honestos ou apenas palavras atiradas ao relento, linguagem vazia que serve apenas para revelar a frouxidão do amor liquido da modernidade.

 

 

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