Eu e Tu

Postado por Ge Guimarães em 08/02/2018 09:47:28

   A existência sensível, enquanto fenômeno instantâneo e em andamento, constrói-se a partir da experiência do existir no tempo e no espaço. Para os gregos antigos, viver a vida plenamente significava deixar-se fluir diante dos acontecimentos, mantendo-se presente no instante e em contato profundo coma natureza e com o outro; uma espécie de fluir pelo rio da existência, sorvendo as vivências com sabedoria e placidez e escutando a voz suave dos diferentes recortes da vida.

   Mas é fato incontestável que atualmente torna-se cada dia mais difícil permanecer onde se está. Nossas mentes, bombardeadas a todo instante com múltiplos estímulos e demandas, sobrenadam no mar sufocante do excesso e vivem distante, alheias ao instante e ao outro. E nossos olhos, poeticamente apontados como “espelhos da alma”, cumprem a tarefa de nos denunciar: ali, naquele Ser, corpo e mente, sensação e abstração, seguem direções opostas. Platão: “É pelo corpo, por meio da sensação, que estamos em relação com o devir; mas pela alma, por meio do pensamento, é que estamos em comunhão com o ser verdadeiro, o qual, dizeis vós, é sempre idêntico a si mesmo e imutável, enquanto o devir varia a cada instante”.

   Quem é você? Quem é o outro ao teu lado? Perguntas aparentemente banais, mas que inspiram uma reflexão mais demorada.

   Cada ser humano é único e vive atravessado por determinado tempo, cultura e sociedade. Então pensar a natureza humana significa contextualizar essa natureza dentro de uma perspectiva histórica. Que homem é esse que um dia acreditou (nos primórdios do humanismo) que a tecnologia o libertaria, proporcionando-lhe paz e tempo para buscar (construir) sua identidade através do desenvolvimento de suas potencialidades imanentes? Ao contrário do previsto e desejado, o cenário que se descortina perante nossos olhos desvela um ser angustiado e insatisfeito, escravizado de forma autoimposta (a pior forma de escravidão, pois esconde-se sob as vestes de uma bonita liberdade), e que na ânsia de se encontrar forja “à fórceps” uma frágil identidade fomentada pelo anonimato da internet. E essa identidade artificial é fixada enquanto tal, e segue à caça de legitimação externa, distanciando-o de si cada vez mais. E por isso tanta sensação de vazio e de falta de sentido. E para quem contesta tal verificação, basta dar uma olhada nas estatísticas referentes às múltiplas desordens do psiquismo humano; ou apenas observar o semblante das pessoas a caminho do trabalho...

   Quando estamos com a “corda no pescoço” é sempre bom girar nossas mentes para as origens.

   A criança é o ser autêntico, pois ainda não convive com os “complicadores” humanos que desenvolver-se-ão a seguir. E entre os agentes que complicam a apropriação da identidade individual de cada homem ou mulher está justamente seu tempo, sua sociedade e sua cultura. E quanto mais nos deixamos influenciar pelo externo, ouvindo menos a própria voz e deixando de desenvolver nossa potencialidade imanente, mais a base que regulará nossos comportamentos e modos de atuar no mundo deixará de residir em nossos próprios critérios autênticos e singulares, e criamos por fim uma imagem de si falseada e incongruente; um personagem.

   Dito isso não quero dizer que formamos nossas personalidades prescindindo do outro; ao contrário, todo contato verdadeiramente humano traz consigo uma mudança e o engendramento de novas configurações em nós. Somos no outro. Só somos se existe o outro. No entanto, vivemos em tempos em que o outro é visto cada vez mais de modo instrumentalizado e objetificado. Uma espécie “coisificação” do outro (reificação). Para que ele me serve? É a vida utilitária, onde só vale a pena conviver e “perder tempo” com o outro se isso me trouxer dividendos. Fora isso, não se tolera mais o outro, que me atrapalha. Intolerância é a palavra de ordem.

 

   E nesse percurso vamos nos perdendo todos. Perdemo-nos um do outro e por consequência, de nós mesmos. Não existe o “eu” sem o “tu”. E cada vez que ignoramos um ser humano que tenta estabelecer um contato conosco, estamos contribuindo para essa dissolução crescente da humanidade dita pós-moderna. E em tempos onde as referências foram diluídas e o homem tornou-se livre para encontrar-se consigo mesmo e para ser quem ele verdadeiramente é, espécie de mantra da atualidade, o Ser Humano precisa, antes de tudo, reaprender a olhar para o outro.

 

 

 

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