Se me roubaram, por que não posso roubar?

Quando é para defender o nosso, acabamos usando argumentos fracos. Mas será que esse tipo de pensamento é válido?

Postado por Pedro Silveira em 11/08/2017 11:00:03

O jogo estava difícil, pegado. A verdade é que o outro time era bem melhor que a gente. Eles sabiam tocar a bola, criavam jogadas bem elaboradas. Nós éramos mais limitados, ficávamos na defensiva esperando uma chance de sair no contra-ataque. Abrimos 2-0, mas eles viraram para 2-4.

O jogo estava se encaminhando para o final e a equipe ficou um pouco molenga, meio desanimada sabendo que seria difícil virar o placar, sabe? Mas numa jogada individual conseguimos marcar o 4-3. Agora tínhamos chance de novo. Como a esperança muda o estado de espírito das pessoas! De repente estávamos de novo com o sangue fervendo, tirando energia de onde não tinha mais, correndo, gritando e tentando. Até que veio o lance fatídico.

Ele controla a bola com a perna direita, partindo pra cima de mim, e dá um corte pra esquerda. Eu estico minha perna em vão. Não pego a bola. Meu pé vai direto na canela do cidadão. Ele cai no chão e a bola fica com o nosso time.

Na hora eu levantei o braço e gritei pro juiz: "FOI FALTA!". O juiz não ligou. Pedi desculpas para o rapaz, que saiu reclamando. Quando olhei para a frente meu colega tinha acabado de chutar. A bola entrou no lugar mais delicioso do gol, no ângulo, e o jogo estava empatado. 4-4.

Normalmente berro, grito, comemoro quando sai gol. Mas não consegui, fiquei me sentindo mal. Fiz uma falta claríssima, o juiz não deu mesmo comigo acusando a falta, e empatamos o jogo logo em seguida. Como o futebol é injusto.

Mas esse texto não é sobre futebol, não se preocupe.

No final do jogo sentamos na arquibancada, exaustos, quando um outro colega do meu time me diz: "Não fala nada, cara! Se o juíz não deu a falta, segue o jogo!"

Respondi que gosto de jogar limpo. Que a falta foi clara, que chutei o rival. Que o nosso gol não deveria ter sido validado. Quando ele falou:

"Sim, mas teve outro jogo em que nós perdemos porque o juiz errou também".

Esse argumento mexeu comigo.

Disse a ele que se fôssemos todos pensar assim, nunca ninguém faria um ato de boa fé. Nunca teríamos um Miroslav Klose, que várias vezes na carreira pediu para o juiz anular seus gols depois de ter marcado em impedimento, ou com a mão.



Eu poderia ter ido além. Poderia ter dito que esse argumento do "me roubaram, então posso roubar" é perigoso, porque pode justificar todo tipo de injustiça nesse mundo. Se os políticos corruptos roubam nosso dinheiro todo dia, por que não posso sonegar impostos? Se fui mal tratado pelo garçom num bar, por que não posso sair sem pagar, ou tratar ele mal também? Se um dia um carro passou na poça e me molhou na rua, por que tenho que tomar cuidado em não passar na poça perto de pedestres? Se me prejudicaram, por que não posso prejudicar os outros?

Assim seguimos, um fazendo coisas ruins porque o outro já fez, e ninguém se sente tentado a fazer o bem, fazer o que é o mais correto.

No calor do momento as pessoas tentam ganhar vantagem de qualquer jeito, usando argumentos ridículos e falhos que infelizmente nos acostumamos a ouvir ou falar diariamente. Como aquele de quem joga papel de bala ou bituca de cigarro na rua e diz que "um só não vai fazer diferença". Mas e 1+1+1+1+1... ? E se todos pensassem assim, como estariam as ruas? As falácias argumentativas são inúmeras:

- Quando alguém pega um caso isolado para justificar o todo. Exemplo: porque algo não acontece comigo, acho que não deve acontecer com os outros.

- Quando A gera B então A vai sempre gerar B. Exemplo: jogando na defensiva conseguimos bons resultados, então jogar na defensiva é sempre a melhor estratégia.

- Quando alguém usa uma afirmação irrelevante para defender um ponto de vista. Exemplo: fulano nunca faria isso, ele parece uma boa pessoa tão boa.

Quando é para defender o seu, a racionalidade fica de lado. Se eu fui prejudicado, posso prejudicar o outro. Mas se meu vizinho usa o mesmo argumento, ele é um mau-caráter. Se jogo minha bituquinha de cigarro no chão é só uma e não vai fazer diferença, mas se alguém joga lixo no meu quintal é porco e mal-educado.

Claro que em diversas situações fica difícil agir de forma mais bem pensada. No mesmo jogo desse dilema moral, tive uma discussão com um colega de equipe e fui grosso. Depois pedi desculpas, mas no calor do momento não tomei a melhor decisão que poderia tomar. É normal, é humano. Mas devemos fazer um esforço consciente para tirar essas laranjas podres da nossa mente. Espero que na próxima discussão que tiver em uma pelada, eu me lembre rapidamente dessa discussão e trate qualquer outra com mais calma. Espero que o meu colega do "me roubaram, posso roubar" lembre da nossa conversa e tenha uma postura mais justa nas próximas partidas, mesmo se o adversário não fizer o mesmo.

E na dúvida, sempre uso uma frase que ouvi não sei de quem, não sei onde, mas que busco utilizar toda vez que me vejo sem saber o que fazer.

Na dúvida, faça o que é certo.

E o que é certo muitas vezes nós sabemos, só não fazemos.

  

Artigo originalmente publicado em: "Se me roubam, por que não posso roubar?".

 

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