redacao @ hierophant.com.br sábado, 29 de novembro de 2014

A farsa sobre o demônio - parte I


A farsa sobre o demônio

Este texto está dividido em três partes

Primeiras descrições do demônio e seu surgimento

A farsa sobre o diabo é uma ferramenta de repressão, opressão e imposição de certas religiões que nas mãos de seus fanáticos lideres religiosos vem se mostrando muito perigosa para a humanidade no decorrer dos séculos. No entanto, podemos ver que esse conceito não é tão antigo, a idéia de um ser maldoso que odeia a todos, muito utilizado no cristianismo antigo, mas principalmente usado nas novas igrejas cristãos, além da sua utilização no islamismo, espiritismo, etc..

Para compreendermos esse “mito” (no sentido popular de algo falso), devemos remontar às Tribos nômades que habitavam a Eurásia há mais de 6.000 anos atrás para vermos como se chegou a criar tal conceito falso acerca do ser diabólico e ainda, muitas outras supostas declarações “religiosas” ou datas comemorativas, tidas como sagradas, como o natal dos cristãos. Vale lembrar que, para as crenças cristãs, a Terra tem nada mais que 6.000 anos, sendo que em alguns casos chegam a falar de no máximo 4.000 anos apenas. Bem, esses pastores da Eurásia, que cultuavam um deus-touro, chamado por eles de Mithra, eram nômades e já tinham alcançados terras distantes chegando até a região de Portugal, na chamada era cristã, quando o culto à Mithra tornou-se muito comum e popular no Império Romano. Porém, para barrar tal prática, a igreja cristã adotou sua data sagrada no mesmo dia de adoração ao deus-touro Mithra, ou seja, no dia 25 de dezembro, para desviar a atenção das pessoas à aquela prática não-cristã, e assim foi criado natal cristão. Esse processo também está embasado no fato de que, nem mesmo os cristãos antigos sabem realmente qual o dia de nascimento de Jesus, criando assim muitas incertezas em outros estudiosos sobre a real existência desse homem.

No entanto, depois do Concilio de Toledo, em 447 d.C., a igreja publica então a sua primeira descrição oficial, ou seja, a sua primeira invenção, descrita oficialmente, do demônio, o que seria difundido como a encarnação absoluta do mal. Nessas descrições constam a imagem de um ser medonho, muito grande e forte, de aparência escura, com chifres na cabeça, exatamente como o deus-touro Mithra da qual a igreja queria impedir a adoração. Nasce aqui a farsa do demônio (um mito falso) na cultura cristã que seria imensamente utilizado no futuro para dominar povos, impor seus costumes, derrubar outras religiões e até mesmo para plantar o medo nos corações de todas as pessoas que aderissem aos seus cultos, envolto de muita dor, medo e arrependimento. A busca pelo poder fez com que os cristãos no decorrer dos séculos mantivessem tal farsa inventiva através de práticas absurdas chegando-se a matar milhares de pessoas por serem consideradas “tomadas pelo diabo”. Isso ainda ocorre nos dias atuais, século XXI, mas de modo bem menos usuais e clandestinamente, ou ainda no imaginário de alguns grupos sociais assim como o aparecimento de fenômenos arcaicos da demonizaçãono imaginário do operário da modernidade[1]. Além disso, algumas seitas cristãs chegaram a cometer assassinatos de crianças baseadas nessa farsa como é a pesquisa publicada na revista especializadaTempo Social, em 2008, acerca do caso do assassinato de crianças por um grupo de “parceiros” convertidos à Igreja Adventista da Promessa em 1955[2].    

Sobre o surgimento dessa farsa também encontramos como ele se construiu segundo alguns estudos e artigos que afirmam que:

 “(...) a primeira representação do Rabudo teria surgido no século VI a.C., na Pérsia. O profeta Zoroastro descreveu a figura de Arimã, o ‘príncipe das trevas’ em seu conflito com Mazda, o ‘príncipe da luz’. Eram essas duas divindades, que expressam a polaridade existente no universo e dentro da própria alma humana, que regiam o mundo de Zoroastro. Durante o cativeiro na Babilônia, os hebreus tiveram contato com o masdeísmo persa, religião que divinizava os seres naturais. Segundo alguns historiadores, isso foi fundamental para a concepção do que viria a ser o Satã do Judaísmo e do Cristianismo. Na antiga língua hebraica, Satanás quer dizer acusador, caluniador, aquele que põe obstáculos. E foi assim, sem a face aterrorizante que ganharia mais tarde, que o Diabo estreou no Velho Testamento. Agia como um colaborador de Jeová, o Deus judaico-cristão, para testar a lealdade ou castigar os seus escolhidos. Jeová, por exemplo, determinou a Satã que precipitasse o desobediente rei Saul no poço da depressão.”[3]

[1] MARTINS, José de Souza. A aparição do demônio na fábrica, no meio de produção. Tempo Social.Rev. Soc. da USP, São Paulo, V. 5, n. 1-2, Novembro, 1994.

[2] CASTALDI, Carlo. A aparição do demônio no Catulé. Tempo Social. Rev. Soc. da USP, São Paulo, V. 20, n. 1, Junho, 2008.

[3] Revista Superinteressante, edição 174, março de 2002.

Assim também surge a noção de bem e mal dentro do cristianismo, difundido até hoje em qualquer uma das suas milhares de vertentes, seitas e igrejas pelo mundo afora, ou seja, tem origem no Zoroastro, uma cultura religiosa e filosófica que viria, no futuro ser chamada e acusada pelos cristãos de pagã (termo aliás, que ficou difundido como algo anticristão, numa conotação claramente pejorativa, ao contrário do seu real significado, ou seja, uma religiosidade ou espiritualidade pagã, que está relacionada ao cultivo do sagrado na natureza), dando então, a esse termo uma conotação erroneamente pejorativa que geraria muitas mortes e massacres durante as inquisições.    

Os nomes dados ao Diabo

É lamentável que exista uma difusão tão grande de uma farsa tão absurda como o de um Mal Personificado, ou seja, um demônio e inimigo de Deus. Nesse sentido já podemos analisar o quanto esse conceito de um demônio, passa a ser algo sem nenhum sentido, do ponto de vista filosófico ou ontológico. Pois, se Deus é absoluto e supremo, e isso é algo que todas as religiões concordam juntas, não se pode aceitar que esse Deus possa ter um “concorrente”, tal como um demônio, de forma geral. E mesmo nas atribuições antigas dadas a esse ser, parece muito controverso que ele instigue medo nos próprios fiéis de Deus, ou seja, que essa farsa mitológica seja usada para controlar os membros de uma dada religião através do medo.

Sabemos hoje que a farsa do demônio, capeta, diabo, asmodeu, belzebu, azazel, belial, etc., (uma infinidade de nomes) é algo relativamente recente na humanidade, pois religiões muito antigas que remontam a milhares de anos atrás não tinham qualquer relação com isso e mesmo se analisarmos o significado da palavra religião, de forma geral (aceito pela maioria dos religiosos), ou seja, religar o homem ao Homem Supremo, Deus, nada importaria um suposto diabo, ou o iblis, como dizem os muçulmanos ou o arimã, como o chamavam os seguidores de Zoroastro, na Pérsia.

No Brasil, os temerosos de mencionar-lhe o nome, o chamam de rabudo, tinhoso, beiçudo, pai da mentira, cão e mais uma lista imensa de nomes que soam no mínimo irônicos, mas que nos mostram a tendência a criar um ser que mistura homem e animal, como dissemos acima. Para muitos estudiosos da religião, ou das religiões, diversos conceitos utilizados hoje, forma se modificando com o passar dos tempos e tomando forma que servisse para seu intento original, ou seja, a dominação dos povos pela religião. Mesmo as religiões mais novas e recentes tiveram suas origens em conceitos muito diferentes dos que hoje se apregoa. A palavra demônio (demon, devil, etc.), por sinal, deriva do grego daimon, que significa simplesmente "espírito”. Espírito é o que todos os seres vivos são, e isso é um conceito comum a qualquer religião, ou seja, está ai mais uma contradição dentre muitas que aparecem na lista das supostas “verdades reveladas” em torno desse mito que é fonte de rendimentos financeiros para muitos, especialmente para as novas igrejas cristãs evangélicas, chamadas tecnicamente de neo-pentecostais.

Lembramos que as idéias do inferno (a suposta morada do diabo), julgamento final, castigo eterno e outros dogmas criados por líderes cristãos do passado, estão diretamente relacionadas com a farsa do demônio, assim, como foram surgindo e se reformulando com o passar dos tempos e as devidas alterações nas escrituras, como a bíblia, inúmeras vezes alterada e sem nenhuma comprovação até hoje de sua veracidade, em qualquer época ou parte, seja velho ou novo testamento, seja achados do mar morto ou qualquer novas revelações, como é comum a algumas seitas cristãs, como os mórmons, criada nos Estados Unidos e muito forte no estado de Utah, daquele país. 

Onde se encontram a farsa do demônio

Os grandes santos e homens de verdadeira integridade espiritual sempre cultivaram o amor a Deus, aos outros, á Terra, aos animais, assim como cultivavam, praticavam e ainda praticam em suas vidas diariamente a bondade e a compaixão, a auto-realização, a felicidade interior plena e a pureza de coração, mente e palavras, e claro, o total destemor. Essas são algumas das qualidades cultivadas e facilmente vistas nessas pessoas chamadas de “santas”[1], e isso podemos encontrar em muitos homens e mulheres em diferentes seguimentos religiosos, sejam no Oriente ou no Ocidente, até mesmo no cristianismo, onde esse mito do diabo, ou essa farsa, foi (e ainda é) mais difundido e, segundo alguns, criado por antigos reis e/ou clérigos com o intuito de arrebatar novos “fiéis” através do medo de não se tornarem cristãos como citamos no inicio desse artigo.

De fato, outros seguimentos utilizaram-se desse conceito também, tal como o Islamismo em suas vertentes diversas, o Espiritismo, vertentes do Judaísmo e até mesmo religiões novas, as chamadas “new ages”, dentre outras, todas essas relacionadas à religiosidade tida como Ocidentais, embora de surgimento longe de suas maiores difusões, como Europa e as Américas.

No que se refere às linhas religiosas tidas como orientais, podemos encontrar menções a seres malignos, mas não exatamente a um ser como o diabo, tal como descrevem as tradições acima citadas. É muito raro, ou quase inexistente encontrar esse tipo de conceito, nos moldes explícitos aqui, em linhas religiosas como as do chamado “hinduismo” e em suas diversas vertentes (como os monoteístas chamados de Vaishnava, ou seja, os Hare Krishna, e também nos impersonalistas Mayavadis, etc.) e também no budismo (que embora não seja uma religião, do ponto de vista de um conceito de Deus, ou ligação com esse ser Supremo, mas é vista como tal). Muito pouco também se fala desse conceito do mal personificado no Jainismo, e em outras linhas espiritualistas de origem oriental, assim como nos seguimentos do Judaísmo antigo ortodoxo, porém sempre podemos encontrar esse conceito no cristianismo, que se derivou do Judaísmo e mais explicitamente no cristianismo-protestante e nos chamados, “novo protestantismo” ou “neo-protestantismo”, que seriam os evangélicos, ou popularmente conhecidos como “crentes”.


[1] Ou religiosas, pois uma pessoa “santa” englobaria a noção de pureza, que não é aceita por algumas denominações religiosas, como os neo-pentecostais (evangélicos) que não aceitam a santificação ou pureza de ninguém, reconhecendo assim, no conceito exclusivamente deles, que ninguém na Terra é santo ou puro, absolutamente ninguém.

Mas de forma geral, esse conceito, ou como preferimos chamar aqui, essa farsa, é muito questionável, quando levamos em consideração a noção de Deus, em qualquer religião, qualquer seguimento espiritualista, desde que baseados em escrituras autênticas das quais cabe alguma discussão aqui. 

Epistemologia do diabo

Como Deus, seja qual o nome que você preferir chama-lO, poderia ter um inimigo, um inimigo supremo ? Isso é incongruente. Não cabe na noção de Deus, pois Ele não estaria sujeito aos defeitos dos seres humanos condicionados pelos modos da matéria, ou seja, aceitar algum inimigo, ter algum inimigo ou existir algo que realmente se coloque perante Ele de forma contestadora, ou sequer sentir esse ranço, esse mal-entendido com um ser, que de uma forma ou de outra, foi criado por Ele mesmo. Nem Ele, Deus, poderia se sujeitar a tal postura, em qualquer situação que fosse passageira, pois isso imediatamente o transformaria em um ser fraco, falível, emocionalmente volúvel, e não em Deus propriamente dito.

Um bom exemplo, para uma explicação clara, são os antigos Vedas, seguidos pela tradição monoteísta hindu denominada Vaishnava ou popularmente conhecida como Hare Krishna. Devemos lembrar que os Vedas foram referencia para os estudos do famoso sociólogo Max Weber, considerado o fundador da sociologia da religião. Além dele, muitos estudiosos estudaram profundamente essa literatura, como Schopenhauer, dentre outros. Segundo essas sagradas escrituras védicas, tidas como as mais antigas do mundo, embora Deus tenha vindo em pessoa á Terra, na Sua forma eterna e original como Krishna (reconhecida por seus seguidores como a Suprema Personalidade de Deus), há mais de 5.000 anos, Ele jamais é ou foi controlado ou influenciado pelos modos da natureza material, a saber, Bondade, Paixão e Ignorância, conforme a filosofia védica. Isso é claramente afirmado no livro sagrado védico Bhagavad-Gita (considerado a essência de toda a vasta literatura védica), que é o livro que registra a conversa entre Krishna, a Suprema Personalidade de Deus para essa religião, e seu amigo e devoto Arjuna.

Porém, independente da religião escolhida por alguém ou imposta por sua família ou sociedade, qualquer pessoa religiosa, que, por sua vez acredite num Ser Divino, ou seja, Deus, concorda que Ele é um Ser Supremo, criador e origem de tudo. Assim, acreditar também no demônio implica em ter uma noção religiosa, transcendental, espiritual, pois essa noção exposta pelos que cultivam esse conceito falso de demônio ou diabo está diretamente relacionada com o sutil e não única e exclusivamente com a matéria, já que a farsa do demônio requer aceitar que ele está num Inferno, controlando e influenciando as pessoas nesse mundo e até em outros, se é que acreditem essas pessoas em vida em outros planetas, mas isso é outro assunto. Assim, de certa forma, tanto Deus como o diabo, estariam na mesma plataforma, necessariamente, numa lógica simples e facilmente aceita por seguidores pouco questionadores.

Sem dúvida que existem muitos planetas, sistemas e universos e muitas vidas em todos eles, a própria ciência tem chegado a essa conclusão, ou avançará mais nesse sentido nas próximas décadas. Assim, teríamos planetas superiores e inferiores á Terra. Dentro dessa idéia, encontramos nos Vedas o conceito de que, nesses planetas inferiores a vida é o que poderíamos de fato caracterizar como infernal, porém, não tem nenhuma relação com a farsa do capeta ou satanás (satan, em inglês), como explicaremos a diante.

Nesse ponto temos que acrescentar que um ateu jamais poderia acreditar de fato num demônio, como a farsa exposta, ou então não seria um ateu, já que se trata de algo além da matéria, como acrescentamos brevemente acima. Sendo assim, só podemos aceitar que essa mesma 

pessoa que acredita no demônio, seja como adorador dele ou não, tenha em suas crenças a noção e aceitação de um ser tal como Deus, mesmo não o aceitando como fonte de sua fé principal, pois tudo está num plano transcendental e sutil, supostamente.

Sendo assim, toda a noção do transcendente deve estar pautada em escrituras sagradas autorizadas e comprovadas, conforma as próprias religiões apregoam, pois de outra forma não passa de especulação mental e malabarismos filosóficos. Ou criações espiritualistas advindas de supostos seres superiores com poderes, por exemplo, de grande intuição, no entanto, estando pautados apenas em suas criações mentais, embora essas tenham tido antes fontes religiosas escriturais, pois nada é criado sem uma referencia anterior[1]. E essas escrituras devem ser consideradas autorizadas e fidedignas quando o seu conhecimento tem uma origem, como dizem os Vedas, apauriseya, ou seja, que veio diretamente de Deus, do Absoluto Supremo, e não criado por alguém ordinário.

Importante salientar que nós utilizaremos aqui as escrituras védicas como referencia por serem as escrituras sagradas reveladas mais antigas que se tem registro e por reconhecermos serem as mais adequadas para essa discussão, por isso a temos como referencia em muitos aspectos, tal como o teve Max Weber, ao discutir alguns pontos pendentes em muitas religiões, como a importante questão da teodicéia[2].

Dessa forma, se concordam todas as linhas religiosas que Deus é o criador e a origem de tudo, então também concordam que Deus é o controlador supremo de tudo, como se afirma até mesmo no sagrado livro védico Sri Brahma-samhita 5.1, uma antiga escritura védica, “isvarah paramah krishnah”, ou seja, Krishna (Deus) é o Controlador Supremo. Assim, podemos encontrar afirmações semelhantes no alcorão, na bíblia, etc.  



[1] Sabemos que aqui esbarramos em discussões filosóficas abrangentes, sobre as origens das idéias ou criações, referencias anteriores, etc., mas não entraremos nessas discussões nesse momento.

[2] Conforme consta em WEBER, Max. “Sociologia da religião (tipos de relações comunitárias religiosas)”. In: Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Vol. 1. Brasília: UnB, 2009. pp. 350-355.

(continua)
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