redacao @ hierophant.com.br sexta, 19 de dezembro de 2014

Design emocional


manuel

Imagem: Manuel Archain
Donald Norman, um dos sujeitos mais polêmicos da história do design, publicou, em 1988, o icônico “The design of everyday things”, onde tascava a língua nos objetos que não eram funcionais (com razão, diga-se de passagem). Tudo girava em torno na funcionalidade e da usabilidade, da função e da forma, de maneira completamente lógica e desapaixonada.
Mas Norman é um sujeito curioso e muito, muito estudioso. Ele se embrenhou pela área da ciência cognitiva para enfrentar as críticas dos designers, segundo ele mesmo, merecidas, de que, pelo livro dele, os objetos seriam todos muito úteis e usáveis, mas muito, muito feios também.
No ótimo “Design emocional: porque adoramos (ou detestamos) os objetos do dia-a-dia”, Donald admite que só agora compreende o quanto a emoção é importante para a vida da gente. Funcionalidade e usabilidade continuam importantes, é claro, mas sem diversão e prazer, alegria e entusiasmo, e até ansiedade e raiva, medo e fúria, nossas vidas seriam um tédio. O moço também começou a prestar atenção na questão estética, na atratividade e na beleza (por que as pessoas “sérias” têm tanta vergonha de dizer que adoram coisas bonitas?).
Norman se deu conta de que ele estudava a ciência da cognição como um verdadeiro CDF, mas deixava a estética e a emoção de lado. E havia um paradoxo entre seu eu científico e seu eu pessoal, digamos assim (o sujeito curte muito visitar galerias de arte e concertos). Ele reparou que tinha em casa uma coleção de bules de chá caríssimos, sendo a maior parte deles impossível de ser usado (Norman prefere uma chaleira japonesa sem nenhum glamour para o dia-a-dia). Os bules, para ele, são esculturas artísticas; é um bálsamo olhar para seus tesouros todo dia quando acorda. Cismado com a questão, juntou a ciência e a psicologia da cognição, o design, a engenharia e a ciência da computação para achar uma resposta para esse enigma. E achou.

Ele descobriu que nosso processamento interno acontece em 3 níveis de estrutura do cérebro: visceral, comportamental e reflexivo.
O nível visceral é onde as coisas acontecem automaticamente, de maneira pré-programada geneticamente. Nesse nível, os  julgamentos são rápidos: bom ou mau, seguro ou perigoso.
A estrutura é biologicamente projetada para ampliar as chances de sobrevivência e fundamenta o comportamento afetivo. Esse nível é incapaz de raciocínio; é uma programação genética que desencadeia afeto positivo para situações e objetos que oferecem alimento, calor ou proteção, tipo lugares aquecidos e bem iluminados, sabores e odores doces, cores alegres, matizes saturados, sons tranquilizadores, melodias simples, carícias, rostos simétricos e sorridentes, objetos lisos e arredondados, sons e formas sensuais. Em contrapartida, há condições pré-determinadas que favorecem o afeto negativo automático: alturas, sons altos ou estridentes, luzes fortes, calor ou frio extremos, escuridão, ambiente denso ou atravancado, multidões, cheiros de podridão, alimentos ou corpos em decomposição, sabores amargos, objetos pontiagudos ou assimétricos, corpos deformados, etc.
O nível comportamental é que controla a maior parte das nossas atividades do dia-a-dia e suas ações podem ser influenciadas pelo nível superior (reflexivo) e influenciar o inferior (visceral). É o que permite, por exemplo, que você não gaste todo o seu cérebro enquanto dirige seu carro; você pode dirigir, pensar nas tarefas do dia e cantarolar uma música graças a ele. Os profissionais altamente treinados usam bastante esse nível, que não é consciente. Assim, os dedos de um pianista experiente praticamente se mexem sozinhos enquanto ele pode refletir sobre a música que está tocando.
Já o nível reflexivo é o único realmente consciente. É o cognitivo, que permite que a gente aprenda, use as experiências e raciocine sobre as decisões que tomamos, além de comunicá-las a outros. É o nível mais vulnerável às influências externas como a cultura, a experiência, o grau de instrução e as diferenças individuais, podendo, inclusive, anular os outros. Isso explica porque alguns de nós conseguem sentir prazer com situações de medo (esportes radicais) e desdenham abertamente o que é visceral, comum, com forte apelo popular.
Então, tudo o que a gente faz tem componentes cognitivos (reflexão) e afetivos (viscerais e comportamentais). O cognitivo atribui significado; o afetivo atribui valor. Nos níveis inferiores (visceral e comportamental) existe apenas afeto, sem interpretação ou consciência. No nível cognitivo acontece a interpretação, a compreensão e o raciocínio. E se o estado afetivo é positivo ou negativo, muda a maneira como a gente pensa e reflete.
Em estados afetivos negativos, estamos mais propensos ao foco – a gente se concentra sobre um tópico sem se distrair, até alcançar uma solução. Nenhum detalhe escapa, pois esse estado mental é associado à sobrevivência e ao perigo. Já estados afetivos positivos relaxam os músculos e o cérebro; assim a gente pode “viajar”, criar, aprender, ser menos focado e ter uma ideia do conjunto.
No processo criativo do design são necessários os dois estados: no afetivo positivo, a criatividade está liberada; no negativo, é preciso se concentrar nos prazos e na viabilidade. Além disso, pode-se classificar o design em três níveis que influenciam o processo decisório de uma pessoa: o design visceral (aparência, percepção); o design comportamental (prazer e efetividade de uso) e o design reflexivo (auto-imagem, satisfação pessoal, lembranças).
O designer punk mesmo é aquele que consegue equilibrar os três níveis em um projeto (dá para imaginar que a tarefa não é nem um pouco fácil).
Norman ainda tem muito a dizer no livro, mas não quero me estender mais aqui. Só queria ressaltar que o nível reflexivo do designer que geralmente reprova fortemente as coisas bonitinhas, consideradas banais, triviais e carentes de profundidade e substância, está claramente tentando aplacar a atração visceral imediata por essas coisas. Se a pessoa se aceita, não se revolta tanto com isso, não se incomoda e deixa cada um ser como é. Sempre vejo gente incomodada demais com o fato de uns gostarem de assistir BBB e outros amarem sanduíches do McDonald’s. Qual o problema, galere? Cada um com seu nível de processamento e todos felizes, sem stress.
Norman resolveu isso assumindo publicamente sua paixão visceral pelos bules de chá. Somos todos humanos fundamentalmente viscerais e o nível reflexivo, felizmente, ainda não controla tudo de maneira soberana. Não há porque se negar esses pequenos prazeres em nome de sei lá o quê.
Acho digno.
Lígia Fascioni 


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